Jornalistas:
Qual é o papel do psicólogo na assistência às vítimas de violência?
Marcelina
Chai chai:O psicólogo por norma trabalha com o
comportamento, as condições de saúde mental, com questões de educação
deficiência entre outros onde o psicólogo pode intervir. Mas nesta área de
assistência às vítimas de violência, o psicólogo ajuda a vítima a perceber o
comportamento que tem para trazermos o comportamento que tinha ou seja aquilo
que era o seu comportamento normal o psicólogo ajuda também a reflectir e
trazer a verdade conhecendo a si próprio os seus problemas e as causas dos
mesmos. Por outro lado psicossociais identificam o problema e tentamos orientar
para os diferentes sectores de atendimento para se resolver as situações que
ela tem, ajudando também a restabelecer as conexões famílias sem esquecer de
dar conhecimento.
Js:
Como é que o psicólogo ajuda o indivíduo a identificar o seu problema?
MC:
Nós temos um guião específico, com regras, com base
nas questões que fazemos conseguimos ajudar o indivíduo a identificar o seu
problema e como deve resolver, e o seu potencial para resolver por si só o seu problema.
Em suma são técnicas, modelos que ajudam a ajudar o indivíduo a resolver o seu
problema.
Js:
Quais são as dificuldades emocionais que as vítimas apresentam?
MCc:
As emoções surgem porque existe um problema, mas
quando a emoção perde o controle, já não é a nossa área nós encaminhamos ao
gabinete de psiquiatria pós a emoções que quando são fortes já necessitam que o
indivíduo tome uma medicação para regularizar a emoção, restabelecer a emoção
ao normal. Muitos quando apresentam se com emoções fortes chegam a negar tudo
quão está a ser dito então precisamos restabelecer a emoção para que haja uma
boa conversa. A abordagem que usamos é exactamente identificar as emoções e ver
se está controlada e se não estiver encaminhamos para os hospitais para restabelecer
as emoções, a nossa abordagem é identificar e direccionar.
Podemos
afirmar que nem todos casos que vem a capaz são resolvidos na ca-paz?
Sim,
devido a nossa abordagem. Se por exemplo existe um trauma, podemos reencaminhar
aos hospitais. Se o que estiver afectado for a saúde do indivíduo, mandamos ao
hospital mas se identificamos que a parte lesada é a material, encaminhamos ao
departamento jurídico para interferir e buscar os direitos da pessoa. Mas a
casos em que a emoção não é muito forte e conseguimos resolver tudo aqui, se
for uma questão espiritual reencaminhamos por exemplo para a metramo e juntos
salvaguardarmos o direito da vítima a metramo cuidado da parte tradicional
falando de "banhos", e nos dos direitos da vítima. Porque há vítimas
que acreditam que só tomando o "banho" tradicional é que terão
direitos.
Podemos
dizer que a tradição está aliada a umas das formas de assegurar o direito das
vítimas?
Nós
acautelamos muito essa parte tradicional para saber até que ponto a tradição
influência a vítima, olhando se a faz mal ou não. Não estamos para tirar a
tradição de alguém, apenas perceber como a pessoa olha essa tradição porque uma
coisa é tradição e outra é feitiçaria. Porque se a vítima Olha muito para a
feitiçaria, devemos perceber até que ponto ela acredita nisso, temos a metramo
para nós ajudar, esses da metramo tem formação para lidar com as vítimas, e nos
ajudando com as informações e a descodificar os problemas da vítima e assegurar
os seus direitos. A casos em o homem acusa a mulher de feitiçaria mas a mulher
passa por um processo onde ela é o objecto do pacto e nós sabemos que quando
isso acontece a mulher ela começa vive com esses espíritos logo ela não é
feiticeira, mas sim lhe foi atribuído algo que até a torna má, e nós tentamos
resolver essas situações dependendo das circunstâncias tentamos proteger os
direitos da mulher, temos também caso de idosas que são agredidas e mandadas embora
acusadas de feitiçaria mas por vezes essa é uma estratégia para beneficiar - se
dos bens da vítima, logo nós congelamos os bens e começamos a resolver o
problema.
Qual
é a faixa etária que mais procura ajuda na Ca-paz? E dependendo da idade o
atendimento é diferenciado?
Claro,
o que acontece nos mais jovens é diferente dos adultos. Nós casos em que os
jovens estão a experimentar compartilhar marido, é diferente quando são adultos
porque já experimentaram, os adultos na sua maioria só querem os seus direitos
e não mais a relação, mas os jovens querem ainda salvar o casamento e temos de
a ajudar a entender que por vezes o homem não quer mais e devemos ajudar a
vítima a aceitar a separação mas se houver a possibilidade de reatar o
casamento auxiliamos, logo, o atendimento é diferenciado. Mas é muito difícil
fazer um jovem perceber que o amor da sua vida já não quer mais permanecer
naquela relação então tudo isso é um trabalho. Também temos casos de filhos que
maltratam, mas existe uma uma diferença sim.
Ao
falar - se de violência olha - se muito a mulher como vítima. Aqui na Ca-paz a
casos em que o homem veio como vítima?
Sim,
o mais frequente é a mulher vir como vítima e percebemos que o homem é que é a
vítima, dependendo da abordagem, se nós só queremos lutar pelos direitos da
mulher sem olhar com profundidade o problema estaremos a errar, isso seria
muito errado mas se nós usarmos uma abordagem que aprofunda aí sim. Nós não só
trabalhamos com o problema que a pessoa apresenta, trabalhamos com a causa
então muitas das vezes quando vamos a fundo percebemos que tanto o homem como a
mulher se violentam, antes da mulher ir a cadeia nós tentamos resolver aqui
porque muita da vezes ela já quer matar e tem muita raiva e tentamos evitar. A
situações de mulheres que chegam e mentem , alegando que os seus maridos lhes
espancaram e quando investigamos e ouvimos o marido percebemos que ela é quem
espancou o marido, então isso acontece muito. A nossa abordagem é ir ao
problema a fundo. Podemos dar o exemplo em que a mulher teve relações sexuais e
se limpou com meia saia e daí surgiu um problema, mas com pesquisas percebemos
que o homem tinha uma crença de que a morte do pai foi perpetuada por uma
mulher, já qualquer coisa que a mulher fizesse já era motivo de se desconfiar.
Existe
o caso do homem por si só buscar ajuda sem que a mulher denuncie e depois se
perceba que o homem é que é a vítima.
Tivemos
um caso saído do tribunal em que o homem foi absorvido. E a mulher veio e
queixou se porque o tribunal julga a consequência do problema e não o problema,
e por com a nossa abordagem confirmamos que a mulher é que era a causadora dos
problemas.
A
Ca - paz tem autonomia para denunciar a violência?
Qualquer
um pode denunciar, a única coisa que deve haver é a protecção do denunciante.
há casos que entram aqui e nós percebemos que é grave e precisa de tribunal e
denunciamos, fomos ensinados como fazer uma denúncia. E as nossas denúncias já
não vão a esquadra mas sim a procuradoria. Nos tratamos muito dos casos que já
prescreveram, o nosso papel é reformular o problema. Por vezes o tribunal só
julga e se a vítima não tiver um advogado para fazer a execução da sentença,
continua a sofrer e nós aí educamos também as pessoas a executar as sentenças
com a ajuda dos bons vizinho.
Quais
são os casos de violência que a Ca-paz tem recebido com frequência?
É
a psicológica, é uma escadaria primeiro a psicológica depois a verbal. E por
fim o espancamento, mas aquele que bate hoje não atentemos nos trabalhos com um
histórico, nos trabalhamos com quem vem sofrendo e não está a conseguir
desenvolver a sua vida. Dentro da
violência psicológica que é a mais frequente, olhamos muito para o caso em que
a se joga na cara da vítima que ele não tem nenhum bem , e isso afecta o seu
psicológico...
Qual
é a média dos casos de violência psicológica que a CA-PAZ tem recebido
mensalmente?
Mensalmente
recebemos uma média de 5 casos, que numa primeira fase são avaliados pelos bons
vizinhos com o objectivo de compreender o nível de sofrimento das vítimas, mas
para mim todos os casos que vem à CA-PAZ são graves, pois as relações sociais
desses indivíduos estão degradadas.
Poderia
partilhar um exemplo de sucesso de um indivíduo que tenha se beneficiado
significativamente do suporte psicológico oferecido pela organização?
Temos
muitos casos de sucesso, mas um dos mais caricatos é o de uma senhora, cujo o
seu esposo deu o filho do casal, aos seus sobrinhos, que mataram a criança,
tiraram os órgãos e venderam, esta mulher afirmou ter chorado muito a procura
do filho, mas o marido não dizia nada, mas a polícia achou a carcaça da
criança, realizou-se o funeral, o luto acabou e a mulher viajou para a terra
dos seus pai. Depois de algum tempo ela viu os sobrinhos do marido com carros e
condições melhoradas, a partir desse momento a mulher investigou o caso e
descobriu que os órgãos do filho foram vendidos e ela decidiu fazer uma
reviravolta que culminou com um acidente brutal que acabou com a vida dos
sobrinhos do marido. Após ter descoberto o que aconteceu com o seu filho, a
mulher separou-se do marido. O filho morto não era o único filho do casal, mas
estes continuaram a morrar com o pai, depois de se separar do marido, este
levou a filha mais nova do casal a África do Sul. Temendo a morte de mais um
filho, a mulher veio a CA-PAZ, denunciou o marido e de imediato a CA-PAZ
solicitou pela presença do marido para o informar que o caso seria encaminhado
ao tribunal, e este trouxe a criança de volta à Moçambique, mas o problema não
terminou por aí, porque a mulher começou a exigir seus direitos como ex-esposa
e mãe dos filhos daquele homem, mas uma vez que este não tinha casa própria, a
mulher exigiu que o seu ex-esposo pagasse um talhão por ela escolhido, e nós
ajudamos na luta contra esses direitos, até que ele pagou o talhão, depois de
muita confusão. Com tudo resolvido, a mulher ficou feliz é com a vida melhorada.
Qual
é a avaliação que fazes do número de casos de violência que tem recebido
actualmente e os que recebia à alguns anos atrás, o número cresceu ou
decresceu? E quais são os factores em volta desse aumento ou diminuição dos
casos?
Nós
dependemos dos bons vizinhos que são os nossos activistas, e nas áreas da sua
actuação o número decresceu, tanto em infulene, tsalala, etc. Mas ainda há
muitos bairros em que as pessoas sofrem violência a espera de uma organização
para dirigir-se a eles, podendo eles mesmos dirigir-se as organizações e
reportar os casos, mas onde temos os bons vizinhos os casos estão a reduzir.
A
CA-PAZ vê-se satisfeita com o seu trabalho, sente que está a superar as
expectativas?
Eu
me sinto realizada, porque o meu objectivo sempre foi transferir o meu
conhecimento as comunidades, de modo a que estas ajudem-se umas as outras e
vejo o meu objectivo alcançado, apesar de que no princípio não foi fácil, pois
eu tinha que ir as comunidades para ajudar as pessoas e isso era um grande
investimento. Para reduzir o custo e abranger mais pessoas, decidimos capacitar
as pessoas para o fazer, os bons vizinhos, que além de conhecer melhor suas
comunidades, tem mais afinidade com os seus vizinhos, por essa razão
entendem-se com facilidade, mas quando eu intervinha, por vezes fingiam estar
tudo bem e tinham sempre a expectativa de receber valores monetários ou
produtos alimentares.
Afinal
de contas, em que consiste o modelo bom vizinho?
O
modelo bom vizinho, é uma metodologia que nós achamos eficaz para resolver de
forma adequada e real os problemas da comunidade e responder as suas
necessidades.
A
CA-PAZ é que vai atrás dos bons vizinhos, ou estes vem de forma voluntária?
Para
achar os bons vizinhos, nós vamos ao governo local e eles é que selecionam as
pessoas com quem querem trabalhar. Os bons vizinhos não pertencem a CA-PAZ, mas
sim a comunidade, nós nunca vamos buscar, simplesmente vamos ao governo, este
seleciona e nós capacitamos, mas há sempre os que abandonam esse trabalho
porque acham que nós damos dinheiro, sendo que não, quem trabalha com esta
organização é porque tem valores morais. Agora pretendemos estabelecer uma
ligação entre os bons vizinhos e o governo local e central, para não criar
dependência das pessoas a CA-PAZ.
Quais
são os bairros que já têm os bons vizinhos?
Até
2010 já havíamos capacitado 32 bairros, eram mais de 400 bons vizinhos, mas
alguns abandonaram-nos por achar que oferecemos dinheiro, foi daí que adoptamos
o sistema de solicitar pessoas no governo. Agora temos os bons vizinhos em
Tsalala, Acordo de Lusaka, Machava, etc.
Quais
são os planos futuros da CA-PAZ?
Nós
temos um gabinete de atendimento, como forma de estimular o trabalho dos bons
bons vizinhos. Os nossos objectivos agora são o estabelecimento de uma ligação
entre a comunidade e o estado e sermos um modelo de associação de referência
que implanta os subsistemas de assistência psicossocial nas comunidades.
Jornalistas
Ludimila Bata e Zuleica Chambule

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