Entrevista a Dra Marcelina Chai chai, psicologa e directora executiva da CÁ-PAZ, em torno do tema Tráfico de menores: assistência psicossocial, um crime que tem assolado Moçambique há muito anos.

 

Como é que os psicólogos olham para o tráfico de menores?

O tráfico é uma área de violência. Só pelo facto da criança ser retirada de casa sem saber para onde vai, já trata-se de violência, tráfico é o acto de violência de forma consecutiva  dentro do contexto da mesma, esta é uma definição incorporada pela OMS há anos atrás.

Qual é a importância do acompanhamento psicológico a um menor que foi traficado e conseguiu voltar ao convívio familiar?

O facto da criança ter passado muito tempo com pessoas desconhecidas e presenciando conversas de negociação da venda dela mesma, causa traumas, por essa razão é necessário acompanhamento psicológico para que esta compreenda o que está acontecer na sua vida, além de ajudar na resolução de traumas que possam surgir futuramente.

Quais são os traumas frequentes nas vítimas?

Algumas crianças imaginam a todo momento a passar novamente pelo que passou na condição de tradicada, além de ficarem sempre assustadas.

De que maneira ajudam as vítimas?

Fazemos com que a criança converse e conte o que aconteceu, mas existem técnicas apropriadas para estes trauma, como a psicoanálise que é uma técnica muito boa, em suma, consciencializamos e sensibilizamos as vítimas.

Qual é a abordagem usada pelos psicólogos para ajudar as famílias cujos parentes foram vítimas do tráfico?

Na maioria das situações que já presenciei as famílias não percebiam por que razão as suas criança desapareciam, mas quando despertam, o medo toma conta destas famílias e ficam preocupadas. Algumas mães entregam seus filhos a estranhos, acreditando que estas terão emprego e melhores condições de vida, sendo que estão a ser enganadas. A nossa intervenção termina na sensibilização para que as pessoas possam ganhar consciência das consequências de entregar seus filhos a estranhos.

 Como é que a Doctora ajuda as vítimas a reintegrarem-se na sociedade?

Ajudamos com base no modelo Bom Vizinho. Quando as crianças que passaram pelo tráfico são identificadas, procuramos a sua família em coordenação com os serviços da acção social, ou seja encaminhamos as crianças a acção social, que por sua vez, ajuda na reintegração, e ajudamos monitáriamemte  também, mas o modo de reintegração depende de cada caso.

Qual é a média de casos de tráfico que tem recebido mensalmente?

A frequência dos casos é menor, num ano posso atender só 3 casos.

Já recebeu o caso de algum traficante que queira mudar de vida?

Eu até gostaria, mas o medo sempre toma conta de mim, pois estas pessoas até assassinam suas vítimas, e não lhes seria difícil fazer o mesmo comigo.

 

 

                                                                         Ludimila Bata & Zuleica Chambule

 

 

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